|

Crises Continuam

Começar o tratamento costuma trazer uma expectativa muito clara: parar de ter crises.

Quando elas continuam acontecendo, é fácil pensar que o medicamento “não funcionou”, que algo está errado ou que não existem mais opções.

Na prática, esse momento precisa ser analisado com mais cuidado.

Uma nova crise é uma informação importante

Se as crises continuam durante o tratamento, isso precisa ser levado para quem acompanha você.

Mas a resposta não deve ser aumentar, diminuir, interromper ou trocar medicamentos por conta própria.

Antes de decidir os próximos passos, a equipe pode precisar entender questões como:

  • que crises continuam acontecendo;
  • com que frequência;
  • como o medicamento está sendo utilizado;
  • se houve mudanças desde o início do tratamento;
  • se existem efeitos que dificultam seu uso;
  • se o diagnóstico e o tipo de crise permanecem compatíveis com o tratamento escolhido.

Diretrizes internacionais recomendam inclusive revisar o diagnóstico quando as crises persistem apesar de uma primeira estratégia de tratamento adequada.

Leve fatos, não apenas “continua igual”

Para uma próxima consulta, algumas informações simples podem ajudar bastante.

Em vez de apenas dizer:

“Ainda estou tendo crises.”

pode ser útil conseguir explicar:

“Tive três episódios desde a última consulta.”

“Eles pareceram iguais aos anteriores.”

“Um deles foi diferente.”

“Tenho dificuldade para tomar um dos horários.”

“Depois que comecei o tratamento percebi esta mudança.”

Você não precisa interpretar o que cada coisa significa.

Descrever com clareza já ajuda.

Uma tentativa que não controlou as crises não significa epilepsia refratária

Esse é um ponto importante.

O termo epilepsia farmacorresistente, também chamado muitas vezes de epilepsia de difícil controle ou refratária, possui uma definição específica.

A ILAE utiliza como referência a falha de duas estratégias adequadas, bem toleradas e corretamente escolhidas e utilizadas de medicamentos anticrise sem alcançar liberdade sustentada de crises.

Portanto, continuar tendo crises depois de um primeiro medicamento não permite concluir sozinho que você tenha epilepsia farmacorresistente.

Essa avaliação precisa ser feita pelo profissional responsável.

E se diferentes medicamentos não controlarem as crises?

Quando fica caracterizada uma epilepsia resistente aos medicamentos, podem surgir outras possibilidades de avaliação.

Uma delas é o encaminhamento para um centro especializado em epilepsia.

Isso não significa que a pessoa irá necessariamente operar.

A avaliação especializada pode servir para revisar diagnóstico, exames, tipo de epilepsia e possibilidades terapêuticas.

A Liga Brasileira de Epilepsia recomenda o encaminhamento de pessoas com epilepsia farmacorresistente para avaliação em centro especializado, inclusive para discutir tratamentos além da terapia medicamentosa quando apropriado.

“Outras possibilidades” não significa automaticamente cirurgia

Esse salto precisa ser evitado.

Existe uma diferença grande entre:

as crises continuaram → precisamos reavaliar

e:

as crises continuaram → vou precisar operar.

Entre uma coisa e outra existe uma investigação individual.

Para algumas pessoas, uma avaliação cirúrgica pode fazer sentido. Para outras, não. E existem ainda outras estratégias que podem ser consideradas por equipes especializadas dependendo do caso.

O que perguntar agora

Na próxima conversa, estas perguntas podem ajudar:

  1. O que vocês acreditam que explica a continuidade das minhas crises?
  2. Precisamos rever alguma informação do diagnóstico?
  3. Como vocês avaliam se esta tentativa de tratamento foi adequada?
  4. Em que momento faria sentido uma avaliação em centro especializado?
  5. Qual é o próximo objetivo do tratamento?

Continuar tendo crises não é motivo para desistir nem para começar a fazer mudanças sozinho.

É um sinal de que chegou o momento de reavaliar com mais informação.

Fontes

Ministério da Saúde — PCDT da Epilepsia, atualizado em maio de 2026.

International League Against Epilepsy — Drug-Resistant Epilepsy.

Liga Brasileira de Epilepsia — Epilepsia Prática: quando encaminhar para um centro especializado e avaliação cirúrgica.

NICE — Principles of treatment, monitoring and review.

Aviso editorial

Este conteúdo tem caráter informativo e busca ajudar na compreensão do tema abordado. Nenhuma informação do Além da Crise substitui avaliação, orientação, diagnóstico, tratamento ou acompanhamento de profissional de saúde qualificado.

Talvez você também queira entender

Comecei Medicamento

Começar um medicamento para controlar as crises pode parecer simples na receita: nome, dose, horários. Na vida real, porém, logo…