Quando comecei a conviver com crises, percebi uma coisa que parece pequena, mas faz diferença: nem sempre quem teve a crise sabe exatamente o que aconteceu.
Às vezes fica uma lembrança do começo. Depois, um espaço em branco. E quem estava por perto acaba sabendo contar uma parte que você não viu.
Por isso, depois de uma possível crise, vale guardar algumas informações. Não para tentar descobrir sozinho qual foi o tipo de crise, mas para chegar à consulta com uma história um pouco mais completa.
Comece pelo que você lembra
Não precisa fazer um relatório complicado.
Tente lembrar como estava antes do episódio. Estava tudo normal? Sentiu alguma coisa diferente? Estava acordado ou dormindo? O que estava fazendo naquele momento?
Depois, pense no que consegue lembrar de quando tudo terminou. Voltou ao normal rapidamente? Ficou cansado, confuso, com dor de cabeça ou com dificuldade para entender o que tinha acontecido?
Até a resposta “não lembro de nada” pode ser uma informação útil.
Pergunte para quem estava perto
Essa parte pode ser muito importante.
Quando existe alteração da consciência durante um episódio, a própria pessoa pode não perceber ou lembrar de tudo o que aconteceu. Por isso, vale perguntar para quem presenciou:
- o que aconteceu primeiro;
- se você respondia quando era chamado;
- se houve algum movimento diferente;
- aproximadamente quanto tempo durou;
- como você ficou logo depois.
O ideal é que a pessoa descreva o que realmente viu, sem tentar dar um diagnóstico.
“Ficou olhando parado e não respondeu” pode ser mais útil do que dizer “acho que foi uma crise de ausência”.
A descrição de quem presenciou pode ajudar bastante na avaliação do episódio.
Se acontecer novamente, vale filmar?
Um vídeo pode ser útil para mostrar ao profissional como o episódio aconteceu.
Mas existe uma regra mais importante:
cuidar da segurança da pessoa vem antes de filmar.
Se houver apenas uma pessoa acompanhando, ela não deve deixar de proteger contra quedas, afastar objetos perigosos ou buscar ajuda para pegar o celular.
Se houver condições de fazer um registro sem atrapalhar os cuidados, o vídeo poderá ser levado à consulta.
Caso contrário, esqueça a filmagem.
Não precisa virar um investigador de si mesmo
Depois de um episódio assim, é fácil começar a prestar atenção em cada sensação diferente e tentar encontrar uma explicação para tudo.
Mas o objetivo do registro é outro.
Ele serve para que você não dependa apenas da memória na hora da consulta.
Uma anotação simples no celular pode ser suficiente:
Data e horário:
O que eu estava fazendo:
O que lembro antes:
O que outra pessoa viu:
Quanto tempo parece ter durado:
Como fiquei depois:
Pronto.
Se outros episódios acontecerem, esse histórico também pode ajudar o profissional a perceber se existe algum padrão.
Leve essas informações para a consulta
Essas anotações, sozinhas, não dizem se você tem ou não epilepsia.
Elas ajudam o profissional a reconstruir o que aconteceu.
Dependendo da situação, ainda podem ser necessários exames e outras informações. É justamente o conjunto dessas peças que ajuda a compreender melhor o episódio.
Se foi uma primeira possível crise, vale procurar avaliação médica mesmo que você esteja se sentindo bem depois.
E, se estiver acontecendo uma crise convulsiva que ultrapasse cinco minutos, se novas crises ocorrerem sem recuperação da consciência entre elas ou se houver outra situação preocupante, procure atendimento de urgência.
Em resumo
Você não precisa transformar o episódio em um relatório detalhado.
O mais útil costuma ser guardar algumas informações simples:
- o que aconteceu antes;
- o que você lembra;
- o que outra pessoa observou;
- aproximadamente quanto tempo durou;
- como foi a recuperação.
Esses detalhes não substituem a avaliação médica, mas podem tornar a conversa na consulta muito mais completa.
Fontes
- Liga Brasileira de Epilepsia — Epilepsia Prática: Condutas para não especialistas, 2024.
- NICE — Epilepsies in children, young people and adults.
- Ministério da Saúde — materiais de referência sobre avaliação e diagnóstico da epilepsia.
- Hospital Universitário Walter Cantídio/HU Brasil — protocolo de abordagem da primeira crise epiléptica.
Aviso editorial
Este conteúdo tem caráter informativo e busca ajudar na compreensão do tema abordado. Nenhuma informação do Além da Crise substitui avaliação, orientação, diagnóstico, tratamento ou acompanhamento de profissional de saúde qualificado.
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